Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O fumo do meu cigarro

Apenas um outro blog

O fumo do meu cigarro

Apenas um outro blog

Penso sobre os meus mortos e sobre a vida

Fevereiro 16, 2018

Bruno

20170509_180241.jpg

 Como é que se escreve de uma dor, talvez de um vazio, que ficou e que tem dimensões esmagadoras? Como é que se deixa partir alguém, que, dentro de nós, nunca partiu? A morte nunca é fácil, eventualmente ultrapassamo-la, mas... porque é que está a ser mais difícil contigo?

Já se passaram nove meses e alguns dias. Escrevi sobre o sorriso que se te rasgava desde a alma, escrevi mais algumas coisas sobre e para ti, mas não passa um dia, mesmo após ter saído do café, em que não tenha um vislumbre teu pelos meus pensamentos. Não passa um dia...

Há alturas em que acho as coisas particularmente difíceis (e aqui, não é só por ti, Paulinho). Há alturas, em que uma tristeza, tão de mansinho, se apodera de nós, como um perfume que nos chega suave, suavemente, até nos arrebatar com todo o seu aroma. Há alturas em que pensar, em que recordar é demasiado doloroso. Mas nós vivemos. Nos continuamos a viver.

Já devia saber. Tem estado frio (não, não estou a queixar-me), mas o sol tem brilhado. Hoje, pelo menos, o tempo mudou. Ontem, chuviscou. E isso, essas mudanças, acabam sempre por afectar o meu humor. Muitas vezes, de maneira suave. Outras, de uma maneira brutal, como se o mais infame dos homicidas se encontrasse comigo numa sala fechada.

Já devia saber.

Acontece que, de tantos que já foram, de tantos mortos, para mim, és o mais recente e, por um qualquer motivo (talvez pelo teu sorriso, talvez pelo teu jeito único de sorrir), és aquele que mais vezes "me visita" (não, não é uma crença ou fantasia esotérica, entendam).

Acontece que, de um momento para o outro, já depois de te perdermos, vi a minha vida virada ao contrário. 

Acontece que, de um momento para o outro, o meu instinto falhou, quando não previu a falha desses "amigos", com os quais perdi tempo e desperdicei palavras. Nem daqueles de há mais tempo, que têm demonstrado o que valem, nos dias mais recentes.

Acontece que, recusando-me a falhar, falho nessa recusa.

Acontece que, bem no meu âmago, desejo o que rejeito e fantasio com o que não tenho.

Acontece que, deixando de importar-me, revelei a face por detrás da máscara a quem tinha o interesse da conhecê-la. E não me arrependo.

Acendo uma cigarrilha.

Lisa Gerrard entoa a repetida "Redenção" (Redemption) através dos fones,  depois de desligados e retirados os aparelhos auditivos, música na qual fiz o meu luto (e continuo a fazer), na qual tenho encontrado forças, enquanto o fumo enche o espaço. Um gato dorme no meio das minhas pernas e acaricio-o, nos espamos do seu sonho, pelo que ronrona.

São três e meia da manhã. Devia estar a dormir. A estudar o que me propus. A responder às cartas atrasadas. A desenhar. Estou aqui, a escrever e, mais uma vez, não me arrependo da minha escolha.

Sinceramente, há alturas em que já não sei o que sinto. Gosto, muitas vezes, de usar frases feitas, que parecem descrever-me bastante bem: "sou esta criatura estranha, de personalidade alegre e com uma alma triste". Gostava, por vezes, de ser capaz de escrever mais sobre a minha personalidade alegre, do que sobre as mágoas da minha alma. Mas não consigo. Quando a minha mana, Lu, me propos complementar o desenho com a escrita, acho que não imaginava o refúgio enorme que iria proporcionar-me. E, como um refúgio que se preze, tomei a liberdade de decorá-lo à minha maneira, de escapar-me das balas, das flechas, do bicho papão. Tomei a liberdade de tomá-lo para mim, com os tons de sombra que tingem a minha alma e o meu sentimento.

Não sei se haverá muito mais que eu possa dizer, sem que me repita. Quantos túmulos mais visitarei, quantas vezes passarei pelos velhos templos imaginários (ou recordados doutros tempos), quantos passos mais darei pelos desertos estéreis da minha alma. Sem que me repita, não sei se fumarei outros cigarros, se sentirei outros corpos contra o meu, sem pingo de amor ou sentimento, para lá da tesão. Não escreverei sobre o desprezo que devia votar a quem o merece, porque se desprezo, não darei a importância de gastar palavras, mas sobre o rancor, a mágoa oferecida em embrulhos de seda. Sem que me repita, de alguma forma, não sei se te recordarei muitas mais vezes, Paulinho, ao teu sorriso e ao dia da notícia da tua morte (ou do desaparecimento nesse mesmo mar). Sobre esse outro homem, para o qual retenho, em velhos cadernos cadernos rasgados e a precisarem de ser reescritos, qual escriba, poemas a si dedicados. Sem que me repita, não sei se terei muitos mais a dizer.

De uma coisa tenho a certeza, com todas as minhas falhas, com todos os meus erros, com todas as minhas escolhas, boas ou más, é que não deixei de ser fiel a mim e ao que assumo como o melhor, o mais seguro. Tenho a certeza, também, de que, continuando a errar, não será por não tentar. E tenho a certeza de que, enquanto precisar de abrigo, senão de uma outra forma, terei sempre a escrita, por muito má que seja. 

Verdades sobre a cultura popular (the truths about the popular culture, by Joseph Paul Watson)

Janeiro 09, 2018

Bruno

Preparem-se, senhores do politicamente correcto, para ficarem ofendidos!

Livros, pensamentos e outras coisas de 2017

Dezembro 22, 2017

Bruno

Vi a tag do sapo, face 'ao melhor de 2017'.

Lembram-se de quando diziam que 2016 tinha sido mau? 2017 foi péssimo, sob vários aspectos.

 

Vendo essa Tag, lendo dos destaques deste ano, recordo-me que o Sapo me destacou um texto, escrito em Maio. Acho que nunca agradeci à equipa do Sapo. 

O texto falava sobre um desaparecimento no mar, de um rapaz que frequentava o café onde eu trabalhava e que se tornou um amigo. Até hoje, não houve qualquer aparecimento. É parte daquele mar. (O texto destacado pelo Sapo )

 

Contudo, 2017 não foi todo mau. Não termina da melhor das maneiras, mas não foi tudo mau.

Esta música é uma das coisas boas de 2017 - uma, entre muitas.

A autora que eu tenho tentado publicitar - e se gostam de ler, considerem isto uma espécie de anúncio improvisado, :D - continua a tentar vender mais livros, mas consegui que ela tivesse mais um leitor e uma classificação com crítica na Amazon, onde o livro dela é vendido, o que lhe deu a décima revisão que é necessária, para que a Amazon lhe dê mais alguma visibilidade. Deixa-me feliz publicitar uma escritora, que começou agora a publicar, mas cujo estilismo escrito e conteúdo adoro. Fiz algum sentido aqui? Acho que falhei qualquer coisa...

Adiante, eu deixo sempre a ligação para o blog dela, onde, melhor que ninguém, ela explica o livro, faz outros textos, em que explica, demasiadamente honesta, toda a dor que tem sido não atingir aquele patamar, para o qual já trabalhou tanto. Por isso, se tiverem curiosidade, espreitem o blog da Lizbeth: https://lizbethgabriel.blogspot.com

O livro de Lizbeth Gabriel, "The Theater Of Dusk", é uma colecção de 13 contos que ela escreveu durante 9 anos. Ao longo de 9 anos, Lizbeth absorveu a essência mais negra do ser humano. Morte, suicídio, BDSM... todos esses contos, com uma vertente maioritariamente adulta, têm uma forte e impactante mensagem. Todos esses contos, têm aquela essência de mexer connosco e com o mais íntimo de nós, deixando-nos adivinhar aquilo que já sabemos tão bem: nada é o que parece.

Deixo-vos só a leve sensação, aquela doce intriga, de que algo começa demasiado doce. Muitas cores, que se tornam um pesadelo. E ficamos livres. Acham que se atrevem a acompanhar-nos? Atenção se forem alérgicos a gatos. O livro tem muitos! :)

É um livro a ter a consideração. Se conhecerem Howard Phillips Lovecraft, se gostarem do estilo de escrita, é uma das referências que posso oferecer. 

Entretanto, a minha amiga de cartas, a minha correspondente de Trinidad & Tobago, Shivanee Ramlochan, publicou o seu primeiro livro de poesia. Não o li, mas conheço a força das palavras dessa mulher. Shivanee é uma mulher do Caribe, num mundo perigoso, onde mulheres são alvos de assédio, violação, todos os tipos de violência. Shivanee é uma mulher furacão, que transparece todo o seu ser, toda a essência para as palavras que escreve. O seu livro de poesia, "Everyone Knows I Am A Haunting", pela Peepal Tree Press. Se gostam de poesia-sentimento-crueza-verdade-vida, devem ler este livros e estes versos.

Como disse, não li ainda o livro, pelo que não posso fazer uma verdadeira crítica ao mesmo, mas posso tentar sempre mostrar ao mundo quem me inspira de verdade, quem tem algo a dizer, num mundo de conversas vazias e lutas desnecessárias, quando há quem sobreviva e seja mais, sem o querer ou ambicionar, mas por SER.

Pesquisem a Shivanee e a Peepal Tree Press e encontram tudo aquilo que precisam para chegarem ao livro e à mulher por detrás desse livro.

 

Tenho um projecto de escrita com uma outra amiga correspondente. Thina Curtis, do underground Brasileiro, de Santo André, São Paulo.

Conheci a Thina através de uma carta que recebi no correio, há vários anos, com uma das suas zines, "SpellWork". Ainda que não fosse por cartas, mantivemos o contacto através do Facebook e fomos sempre trocando várias impressões. Recentemente, a Thina fez-me uma proposta para um projecto. Não quero revelar muitos detalhes, mas com tudo o que tem acontecido, deixei-me ir abaixo e "abandonei" algumas coisas. Não está esquecido, mas já estou acontecido trabalhar em algumas ideias (mentalmente, claro x)). Há um blog ligado a um projecto da Thina, mas não sei até que ponto ela está envolvida no blog ou quão activo está. https://fanzinada.blogspot.com mas podem sempre espreitar.

 

Como vêem, nem tudo foi mau.

Quis aproveitar só isto, para fazer a dita publicidade gratuita e espontânea. Não estou a ser pago para nada disto, trata-se de amizade, amor à arte, reconhecimento de quem vale a pena ser visto, lido, sentido.

 

Esta música, que está a tocar repetidamente nos meus fones, foi uma entre várias, que 2017 trouxe. Vários artistas de que gosto, destes já reconhecidos, lançaram várias músicas este ano.

Mas esta música tocou-me especialmente. 

 

Acabo de apagar tres parágrafos, de uma lamúria estúpida. 

Eu embirro com as pessoas. E, as pessoas, têm atitudes que me irritam solenemente. Há pessoas, que só o acto de respirarem já é uma afronta, mas, prontos... 

 

Tenho que parar com esta mania de preocupar-me com o que dizem ou pensam. 

 

Bem, para este texto, acho que já vai sendo tempo de fechar. Nada do que eu escreva, será "o melhor de 2017". 

E, uma vez que vou no embalo, acho que vou escrever outro texto. E, ao invés de ir para outro dos meus blogs, vou escrever aqui mesmo.

 

Hasta luego.

Desfragmentação

Novembro 25, 2017

Bruno

Música no Sound Cloud - Do Panjereh - Armin & Delsa

 

Começo por partilhar essa música, que descobri ao acaso no Sound Cloud e, se gostarem de música e cantos árabes, aconselho vivamente. Devo dizer que fazia já algum tempo, desde que tinha descoberto algo que me tocasse tão fundo na alma. Há muito tempo que uma música não me prendia tanto a atenção, desde que uma música, uma voz e um canto me fizessem viajar por terras tão longínquas. Sei que estes meus devaneios podem não interessar, mas como já disse, nada do que escrevo ou do que faço, tem terceiros como uma finalidade.

 

Ando há um tempo para escrever aqui qualquer coisa. Ou nas Crónicas da Vítima ou mesmo no "diário" do Angel Alucard. Ando há um tempo para escrever, mas, enquanto o meu corpo está aqui, a minha cabeça anda a mil, com tudo o que tem acontecido na minha vida, a minha alma anda distante, como se não pertencesse aqui e agora.

Interessa que esteja e viva. Interessa que sinta. Não interessam as consequências disso na minha cabeça atormentada e na minha alma inquieta. Interessa, à força toda, que eu seja como os demais, sem que interesse como é que isso me afecte.

Ando há uns tempos para escrever um texto. E tenho adiado essa árdua tarefa, porque não tenho tido disposição para isso: aguardo um dia, algo que tem de ser feito. Depois, a espera. Entretanto, o meu desgosto face às pessoas, em geral, tem-se agravado, ao ponto de pensar, uma vez mais, com toda a seriedade, em sair da cidade onde mora e rumar mais de trezentos quilómetros em direcção ao Norte, para morar no rio da minha aldeia (recuperar uma casa de pedra que lá temos, cujas paredes são as únicas sobreviventes), o mais longe possível da interacção humana. O prazer que sentia, fosse pelo que fosse, desvaneceu-se completamente. Sinceramente, acredito que possa estar a atravessar uma fase depressiva, somada à minha imensa ansiedade, que, também ela, tem crescido exponencialmente. 

Ando há bastante tempo para tirar um tempinho e escrever. Escrever tudo. Escrever todas as lágrimas que deixei por chorar, todas as coisas más que passei e ultrapassei, sempre sozinho. Escrever a sensação de solidão, há uns anos, quando o meu mundo desabou, sem que ninguém me amparasse a queda, levando com culpas atiradas por uma das pessoas de quem mais apoio esperava.

Ando há uns tempos para escrever tudo aquilo que, mesmo agora, não escrevo.

Actualmente, existem várias redes sociais. Uso várias, depois de uns tempos sem Facebook - digo que não senti falta do dito e, no mesmo dia em que reactivei a minha conta, tive uma vontade enorme de eliminá-lo outra vez. Admito que gosto do Twitter e dos blogs do Tumblr um bocadinho demais. Tanto que, neste momento, juntei as duas contas que tinha no Twitter, numa terceira conta, que ainda não entendi muito bem que serve. Ou para que servirá. Se servirá. 

Começo a achar que, se não estou louco, estou a desintegrar-me ou a desfragmentar qualquer coisa de mim, em várias coisas, que não sei se serão boas ou más. 

Voltei a desenhar. Não tenho feito nos últimos dias, mas tenho tentado destruir os maus pensamentos e os maus presságios nisso. Os maus desejos, descem no papel. Como se a minha vida dependesse disso - e realmente depende!

Tenho pensado em estudar outra vez. Preciso de um trabalho, que adio à espera do dia e das coisas que tenho a fazer e da notícia que tenho receio de receber. Preciso de horários que me permitam estudar à noite. Preciso de estudar também por mim, em casa, sem bem saber como é que hei-de procurar os meus tópicos de estudo.

Tudo isto incomoda-me. São mil e uma coisas, mil e um motivos para me chatear e preocupar-me. Mil e uma razões para subir a ansiedade. Como já tenho dito, em raras conversas, ainda não aconteceu nada, mas se vir algo que me desagrade ou faça temer, já fiz o filme todo na cabeça. 

Este texto, serve, também, para marcar uma nova fase, em que partilho este blog e os textos que escreverei de futuro no Facebook. Coisa que eu não fazia. Não com este blog. 

Este texto, devia servir para libertar-me. Devia servir-me para espezinhar todos os demónios ou para dançar com eles, de roda da fogueira. Devia servir para, negras como a minha roupa, expulsar verdades e devaneios, deixar fluir a minha natureza sentimental, sufocada por imensas camadas de incerteza, desgosto, angústia, ansiedade, raiva, possessão, quimeras... acaba por servir de muito pouco.

Ando há um tempo para escrever um texto, que acaba por revelar-se tão inútil, quanto me sinto na grande maioria dos dias.

Acaba por não servir para a tal desfragmentação. 

Angústia: inspiração de merda

Outubro 26, 2017

Bruno

A noite já vai alta. É mesmo quase de manhã. 

Devia estar a dormir. Ou a acordar agora. Quem sabe? Quem é que quer saber?

Fiz algumas coisas que adiava há algum tempo. Fiquei-me, também, pelo Fado, por ouvir os mesmos Fados de Ana Moura, repetidamente. Fados de desamor. 

 

Desamor.

 

Há muito tempo que não sei o que é amor. (Este tema surgirá sempre. A escrever ou a desenhar, para não ter que viver.)

Há muito tempo que ouço músicas românticas, daquelas que tem letras bonitas, ritmos que me agradam, sem que tenham qualquer significado especial para mim. E, enquanto já lamentei a ausência desse sentimento na minha vida, sou eu que me mantenho à parte disso mesmo.

Sei que há quem me chame de doido, por isto e por muitas coisas mais. "Queres viver ou sobreviver?", pergunta-me o meu amigo, quando digo que fujo dos sentimentos para sobreviver. Não que tenha um especial desejo de viver, mas para o fazer, tenho que sobreviver: sobreviver aos outros, sobreviver a mim mesmo, sobreviver aos sentimentos, que mato à nascença, afogando-os no tanque nas traseiras da minha casa de campo imaginária. Tenho que sobreviver aos merdas que pisam essas mesmas ruas que eu, esses filhos da puta que se acham donos de tudo.

Há muito tempo que não sei o que é sentir amor. 

Amei. E a única pessoa que amei, foi a única com a qual nada tive (e sim, sexualmente).

Amei, com cada fibra do meu ser, com toda a essência da minha alma.

Amei, para deixar-me disso e perceber que, tal como não o queria antes desse sentimento, não o quero agora. Digo, há muitos anos, repetindo sempre que este tema nasce numa qualquer conversa, num sitio qualquer, que nasci sozinho e sozinho morrerei.

(Às vezes, vejo fotos dos casais. Ouço histórias de relacionamentos, presentes ou passados, e fica a mágoa de nunca me ter permitido a isso. Depois, ergo a cabeça e faz mais sentido assim. A minha vida é só minha, o meu sentimento é só meu. Não há quem mereça, quem valha a pena.)

 

A noite já vai alta. A manhã aproxima-se rapidamente.

 

Tédio. 

 

O tédio é simples. Simples demais.

O tédio é apenas viver e respirar e andar e visitar velhos ou novos sítios. O tédio é companheiro. O tédio permanece comigo, pelas noites a sós, a fumar umas no meu quarto. O tédio vai comigo ao café, vai comigo à rua, vai comigo a todo o lado.

O tédio. O amante da minha eterna melancolia.

Estou no mundo errado. Estou na vida errada.

 

Poderia dizer que estou deprimido. Acontece que, não é depressão, senão inspiração. Inspiração em tantas coisas. Naquilo que quero e naquilo que não quero; inspiração tirada de existir sem querer e de sem querer ir vivendo; inspiração de uma voz que amo há muito tempo (afinal, há amor), das guitarras Portuguesas.

 

Neste momento, escrevo porque sim. Escrevo porque preciso de descarregar a alma.

Há algum tempo que eu digo que a minha ansiedade está pior. Os sinais de depressão estão mais fortes. As ânsias de mutilar-me são intermitentes. Adicionar novas cicatrizes, às cicatrizes já existentes. Perder o olhar no horizonte e ir. Ir espiritualmente, para longe, tão longe daqui, carregando comigo os meus demónios.

 

A noite já vai alta. Daqui a nada, nasce o dia.

Escrever... escrever...

Outubro 20, 2017

Bruno

20171020_234231.jpg

Escrever porque me tem feito falta. Muita falta.

Escrever porque não tenho conseguido fazê-lo, tanto pela falta de palavras, pela falta de disposição, como pelo imenso entretém que é a pornografia e o erotismo.

Escrever, porque estou sozinho na esplanada do café, numa noite quente que vai arrefecendo muito lentamente, enquanto um grupo de rapazes conversa à minha frente.

Escrever... escrever sem sentido, sem dó, sem piedade. Escrever, simplesmente.

Nos últimos tempos, tenho tido um péssimo relacionamento com a minha mãe. 

Conversas, melhor dizendo, temas de conversa que julgava extintos para o meu lado, como coisas de amor, regressaram em força. 

Pensava morta a minha capacidade de falar e desabafar, até arranjar um amigo, num cliente do café onde trabalhei, que desabafa comigo, desde a morte de um amigo em comum, desaparecido nesse mar, até à sua recente paixão. E eu falo, também, por entre o fumo, por entre a mágoa e a voz sumida. 

Escrevo, porque não consigo exteriorizar-me de outra forma. Olho. À volta. Para as pessoas. Admiro-os e comparo-me com eles, sem haver termos possíveis de comparação. 

Escrevo, porque enlouqueço lentamente. Porque não consigo escapar de nenhuma outra forma.

Escrevo.

Vou escrevendo.

Sobre os incêndios e o oportuno "achado" das armas de Tancos

Outubro 19, 2017

Bruno

Escrevi um texto sobre o que se passou no fim de semana, num outro blog que mantenho há vários anos.

Hoje mesmo (ontem, visto que são três e meia da manhã), escrevi um longo texto no Facebook, em tom de revolta e de desabafo, por tudo o que se passou no nosso país e na Galiza durante o fim de semana. Escrevi em tom de revolta, de amargura, pelo facto de existirem pessoas que, mesmo após tudo aquilo que se passou, não verem para lá do seu partido se eleição.

Deixem-me tentar organizar as ideias.

Começo pela madrugada de sábado, quando soube que o imenso incêndio de Nelas se tinha juntado ao de Seia, se não me falha a perturbada memória, estando já em Quintela de Azurara. Quintela, que fica a escassos quilómetros da aldeia onde tenho amigos, a casa que me ficou dos meus avós. Quando soube que Mangualde, a cidade de Mangualde tinha sido evacuada, pois o fogo tinha lá chegado. Quando soube que amigos estavam em risco, que aquilo que lá temos estava em risco. Quando recordei que tinha alguma família em risco - a última das minhas preocupações, por muito frio que pareça.

Essa madrugada que passei agarrado ao Twitter, a tentar saber noticias sobre o avanço do fogo, ao Facebook a tentar contactar amigos que tivesse por lá, a tentar saber se estavam bem e em segurança. Uma madrugada não dormida, para mais um dia agarrado ao telemóvel na esperança de saber de algo.

O fogo foi finalmente dominado. Reacendeu-se. Foi dominado, novamente. Haviam outros fogos. 

Tudo acabou, a chuva chegou e todo o turbilhão de coisas que temos visto. E, além da raiva que sinto, da mágoa, da intensa tristeza, além do alívio por saber tudo acabado - por enquanto - sinto nojo. Nojo das pessoas que foram vistas, armadas, em motas a atear alguns dos fogos; nojo desses governantes que disseram "nunca mais!", para termos este ataque terrorista, quatro meses depois. 

Escrevi um longo texto no Facebook, que visava a raiva que sinto, por sermos marionetas nas mãos destes governantes que acharam, justamente hoje, no meio deste turbilhão, as armas "roubadas" em Tancos. Justamente hoje? Do nada? Ou será esta uma maneira de desviarem as nossas atenções e tentarem fazer com que esqueçamos do assassínio de 100 pessoas, do preto e das cinzas, onde antes haviam verdes árvores ou do recordar de algo horrível, de cada vez que algo queimar no fogão? Não será esta uma forma de tentarem iludir-nos, face ao imenso terrorismo que praticaram contra nós, tentado esconder outros "nunca mais" incompetentes?

Sinto nojo por pessoas, tal como um gajo no meu Facebook, assumidamente do Partido Socialista, ou o Bin Laden do Twitter, também este assumidamente Socialista, verem apenas as cores partidárias? Pedem isto e aquilo, a demissão de Marcelo Rebelo de Sousa, mas não do Indiano de serviço, que faz as armas aparecerem milagrosamente, justamente nesta altura. Uau!

Sinto nojo, porque um Governo que devia defender o seu povo, os interesses e o bem-estar do mesmo, tenta atirar-nos areia para os olhos de variadas maneiras. Porque as cores partidárias estão muito acima das pessoas que morreram e das que cá ficaram, sem nada, com gente perdida, assassinada de forma bárbara, sem a batalha de toda uma vida. Sinto nojo, por ter que ouvir as revoltantes comunicações dos bombeiros, sem terem qualquer ajuda de ninguém. Sinto nojo de ter que ler uma carta da Força Aérea a pedir desculpas aos bombeiros, porque simplesmente o Governo não os autoriza a saírem para o combate aos fogos. Sinto nojo de muitas coisas, de sentir que tudo isto, de alguma forma, sairá impune, sem castigos, nem soluções prácticas. Sinto nojo, por sentir nojo e por não conseguir sentir mais nada, senão nojo, uma imensa e profunda tristeza e muita, muita raiva!

Depois disto tudo, não consigo também deixar de pensar na União Europeia e na sua inacção. Já é a segunda catástrofe em que somos deixados à sorte e eu pergunto-me então: serve para quê, esta "união"?

Sem mais delongas, porque começo a sentir que perco o sentido do que escrevo, termino então se texto com o apelo à que nunca o esqueçamos então se que nunca deixemos o governo, este ou qualquer outro, esquecer as cinzas e o sangue que têm nas mãos. Apelo, ainda que saiba inútil, que ponderemos trocar as cidades e vil temos então aos interiores, às nossas aldeias, às terras que muitos de nós herdámos e que cuidemos disso. Esta é uma das muitas maneiras que temos para nos ajudarmos a nós próprios e de defendermos o nosso país contra futuros ataques deste género - na madrugada seguinte aos grandes incêndios, havia gente de vigília por lá, pela minha terra, gentes conhecidas de carro, a vigiar as estradas e as entradas nas matas.

Que NUNCA MAIS nos matem, aos nossos, ao nosso país. 

Que NINGUÉM possa sair impune e que as armas, supostamente roubadas, não sirvam de distracção a este ataque terrorismo à escala nacional.

Vi no telemóvel, que as temperaturas sobem para os 25 outra vez, na semana que vem. Vigiemos o que resta e asseguremo-nos de que, se algum filho da puta for apanhado a atear um incêndio, que fique amarrado à árvore mais próxima ao fogo ou, então, braços e pernas partidas!

 

Publicação de meu Facebook

Melancolia

Julho 26, 2017

Bruno

( Antes que, quem conhece os meus outros blogs, fica aqui a resposta às vossas perguntas: sim, mantenho-os, tanto o do Angel Alucard, como As Crónicas Da Vítima. )

 

Durante a tarde, em casa da minha tia, à conversa com ela, acabámos por ver os velhos álbuns de fotografias. Recordei a Elizabeth, a minha amiga grega, num texto que, certa vez, escreveu sobre as pessoas nas velhas fotografias do seu (falecido) pai, que ela não sabia quem eram. Ficaram rostos marcados naqueles papéis, sorrisos, momentos... e, ao ver as velhas fotografias da minha tia, recordámos momentos, lugares, pessoas... e, pela primeira vez em muito tempo, disfarcei uma lágrima. Tanta gente, tantos momentos, tantos mortos.

 

Engraçado como, esta noite, pensei em ver o que deixei por ver de uma série. Vinha só à procura de uma música, partilhar no maldito Facebook, pela ansiedade de ir para a minha terra, a minha aldeia por Deus esquecida, o meu cantinho de paraíso. Ansiedade de ver os amigos que, se não for ali, não vejo de outra forma. Ansiedade de ver a minha amada aldeia, onde poderia ter um pouco de paz de espírito, já que, ser feliz, parece uma impossibilidade nesta vida. 

Um Fado puxa o outro, um pensamento puxa o outro, uma ideia puxa a outra é aqui fui ficando.

 

Dentro de uma semana, faço 30 anos. 30 anos muito sofridos, que me deixaram sem confiar em ninguém. Poderia fazer uma extensa lista de razões, a começar por traições, até chegar a coisas mínimas que os amigos fazem, insistem em fazê-lo, mesmo sabendo que eu detesto as coisas que estao a fazer ou em dizer o que eu detesto que estão a dizer. Talvez possam pensar que sejam "amigos", mas já não quero saber...

E, falar de 30 anos muito sofridos, é fodido - permitam-me lá a minha linguagem no MEU espaço. É fodido, porque alguém quer sempre competir, alguém quer sempre ser mais sofrido, ter uma vida mais fodida, ganhar a medalha numa competição que, só para começar, nem sequer começou (trocadilhos fodidos a estas horas).

 

Talvez eu devesse passar pelas pessoas e por estas coisas impávido e sereno. Talvez devesse começar a desprezar, tal como sou desprezado.

Talvez devesse tentar guardar os sentimentos, afogá-los. Já desistiram das conversas de relacionamentos e de amor comigo, porque sempre me mantive sozinho e não dou azo a que esse género de coisas entre na minha vida ou me afecte.

Talvez, face ao passado, o devesse deixar para trás. Não é o que dizem para fazermos? Mas e, então, aquelas pessoas que foram tão importantes para nós e que a morte levou de nós? Aquelas pessoas que não escolheram afastar-se? Esquecemo-las? Se me disserem que sim, sempre gostava de saber que drogas é que vocês tomam, porque eu não consigo.

Talvez eu devesse simplesmente estar a dormir. É tarde e música depressiva, desta vez um Doom Metal, não ajuda, ainda que deleite a minha alma angustiada.

Talvez...

Até já

Maio 11, 2017

Bruno

20170509_180312.jpg

Uma semana passou-se. As buscas foram suspensas. Não houveram mais notícias. 

Há dois dias atrás, começou a ouvir-se falar de uma missa e de uma homenagem na praia. Não houve missa, mas a homenagem teve uma participação imprevista: a escola de surf estava na água, cederam espaço e abriram um corredor com pranchas. 

Não quero entrar em detalhes desnecessários. Agradeço, em nome de todos, à escola e aos seus alunos. Agradeço o vosso respeito, a vossa improvisada homenagem, tudo.

Lentamente, retomamos as nossas vidas. Lentamente, os dias tornam-se normais. A tua ausência torna-se "normal"... ainda permanece aquela angústia, aquela mágoa de não saber de nada, de não te termos por perto, de não podermos encerrar isto definitivamente. Sabes, muitos dizem que querias ver-nos felizes, como tentavas ter todos bem à tua volta, que quererias ver-nos bem, a viver a nossa vida, a dar o melhor de nós. Muitos deles acreditam nisso. Eu acredito que ontem andaste junto de alguns de nós. Dói essa ausência, Paulinho... a angústia torna-se maior, porque... porque, como já o disse, não podemos pôr um ponto final nisso, mas também temos que pensar nele, que também lá ia ficando e que está completamente devastado. Temos que cuidar dele, uns dos outros, de nós. Temos que ser uns pelos outros.

Queria deixar umas palavras quaisquer. Sentidas, bonitas, do maior sentido poético, mas não há nada de poético nisto. E, ao mesmo tempo, insistindo no mesmo, também não há nada de definitivo. Queria deixar-te umas palavras bonitas, algo que pudesse soar a uma despedida, que não estou pronto a fazer, mas que denotasse o imenso orgulho que é ter-te tido na minha vida (nas nossas vidas), o imenso carinho e a imensa ternura com que guardo esses momentos felizes, engraçados que tivemos todos. Mas só consigo pensar que tenho (temos) imensas saudades tuas e que nos fazes muita falta. Ainda espero ver-te entrar no café, fazer aquela esquina, ver o teu sorriso, ouvir a tua voz.

Fazes-no tanta falta, Paulinho... até já...

Dois dias depois...

Maio 06, 2017

Bruno

Dois dias já se passaram. E esse sorriso não voltou para nós. 

Pensei que estava doido. Que era o único que esperava que fossem encontrar-te vivo. Mas vejo que há muito mais gente à espera disso.

Queria que soubesses o quanto gosto de ti. Conheci-te como cliente do café em que trabalho. Ali, aprendi a conhecer-te e a conhecer quem se dava contigo. Ali, fora dali, aprender a gostar de vocês e sempre gostei de ti. Há dois dias, o mar levou-te. Hoje, o messenger do teu Facebook apareceu online. Ontem, tive que dar a notícia a um dos teus amigos. Hoje, ainda quero acreditar que apareces com vida, para junto de nós. Talvez venhas com o sorriso típico, as tuas frases típicas, a dizer que estavas a gozar connosco este tempo todo.

Dois dias já se passaram. Mais calma. Mas não menos sofrimento, mas não menos o sentido de impotência. Impotência perante o que se passa contigo, impotência perante a possibilidade de ajudar os outros com a sua dor. Impotência que se transforma em frustração, especialmente quando sinto que há pessoas que se sentem "atacadas" quando lhes digo que estou aqui, para o que precisarem, à hora que precisarem. 

Isto, lembra-me de ti, mais uma vez: na outra manhã, depois daquelas noitadas com o Dário, ligaste-me às seis e meia da manhã, para eu abrir o café, porque sabias que eu acordava àquela hora. Sabias que não importa a hora, podem ligar para o meu telemóvel, que está sempre ligado para vocês. Fui ter convosco, ajudaram-me a montar tudo. Foram curtir um joguinho de setas, enquanto eu preparei algo para vocês confortarem o estômago. 

Queria que o meu telemóvel tocasse daqui a duas horas, contigo a pedir que abrisse o café. Queria entrar no café à tarde e encontrar-te, rodeado das pessoas. Queria que tudo isto não passasse de um pesadelo.

Dois dias passaram-se. E esperança esmorece lentamente, enquanto sonho com a possibilidade do teu regresso, a rir, sempre a rir, sem que tudo passasse de uma brincadeira estúpida. 

Fazes-me falta. Fazes-nos tanta falta.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D