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O fumo do meu cigarro

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Penso sobre os meus mortos e sobre a vida

Fevereiro 16, 2018

Bruno

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 Como é que se escreve de uma dor, talvez de um vazio, que ficou e que tem dimensões esmagadoras? Como é que se deixa partir alguém, que, dentro de nós, nunca partiu? A morte nunca é fácil, eventualmente ultrapassamo-la, mas... porque é que está a ser mais difícil contigo?

Já se passaram nove meses e alguns dias. Escrevi sobre o sorriso que se te rasgava desde a alma, escrevi mais algumas coisas sobre e para ti, mas não passa um dia, mesmo após ter saído do café, em que não tenha um vislumbre teu pelos meus pensamentos. Não passa um dia...

Há alturas em que acho as coisas particularmente difíceis (e aqui, não é só por ti, Paulinho). Há alturas, em que uma tristeza, tão de mansinho, se apodera de nós, como um perfume que nos chega suave, suavemente, até nos arrebatar com todo o seu aroma. Há alturas em que pensar, em que recordar é demasiado doloroso. Mas nós vivemos. Nos continuamos a viver.

Já devia saber. Tem estado frio (não, não estou a queixar-me), mas o sol tem brilhado. Hoje, pelo menos, o tempo mudou. Ontem, chuviscou. E isso, essas mudanças, acabam sempre por afectar o meu humor. Muitas vezes, de maneira suave. Outras, de uma maneira brutal, como se o mais infame dos homicidas se encontrasse comigo numa sala fechada.

Já devia saber.

Acontece que, de tantos que já foram, de tantos mortos, para mim, és o mais recente e, por um qualquer motivo (talvez pelo teu sorriso, talvez pelo teu jeito único de sorrir), és aquele que mais vezes "me visita" (não, não é uma crença ou fantasia esotérica, entendam).

Acontece que, de um momento para o outro, já depois de te perdermos, vi a minha vida virada ao contrário. 

Acontece que, de um momento para o outro, o meu instinto falhou, quando não previu a falha desses "amigos", com os quais perdi tempo e desperdicei palavras. Nem daqueles de há mais tempo, que têm demonstrado o que valem, nos dias mais recentes.

Acontece que, recusando-me a falhar, falho nessa recusa.

Acontece que, bem no meu âmago, desejo o que rejeito e fantasio com o que não tenho.

Acontece que, deixando de importar-me, revelei a face por detrás da máscara a quem tinha o interesse da conhecê-la. E não me arrependo.

Acendo uma cigarrilha.

Lisa Gerrard entoa a repetida "Redenção" (Redemption) através dos fones,  depois de desligados e retirados os aparelhos auditivos, música na qual fiz o meu luto (e continuo a fazer), na qual tenho encontrado forças, enquanto o fumo enche o espaço. Um gato dorme no meio das minhas pernas e acaricio-o, nos espamos do seu sonho, pelo que ronrona.

São três e meia da manhã. Devia estar a dormir. A estudar o que me propus. A responder às cartas atrasadas. A desenhar. Estou aqui, a escrever e, mais uma vez, não me arrependo da minha escolha.

Sinceramente, há alturas em que já não sei o que sinto. Gosto, muitas vezes, de usar frases feitas, que parecem descrever-me bastante bem: "sou esta criatura estranha, de personalidade alegre e com uma alma triste". Gostava, por vezes, de ser capaz de escrever mais sobre a minha personalidade alegre, do que sobre as mágoas da minha alma. Mas não consigo. Quando a minha mana, Lu, me propos complementar o desenho com a escrita, acho que não imaginava o refúgio enorme que iria proporcionar-me. E, como um refúgio que se preze, tomei a liberdade de decorá-lo à minha maneira, de escapar-me das balas, das flechas, do bicho papão. Tomei a liberdade de tomá-lo para mim, com os tons de sombra que tingem a minha alma e o meu sentimento.

Não sei se haverá muito mais que eu possa dizer, sem que me repita. Quantos túmulos mais visitarei, quantas vezes passarei pelos velhos templos imaginários (ou recordados doutros tempos), quantos passos mais darei pelos desertos estéreis da minha alma. Sem que me repita, não sei se fumarei outros cigarros, se sentirei outros corpos contra o meu, sem pingo de amor ou sentimento, para lá da tesão. Não escreverei sobre o desprezo que devia votar a quem o merece, porque se desprezo, não darei a importância de gastar palavras, mas sobre o rancor, a mágoa oferecida em embrulhos de seda. Sem que me repita, de alguma forma, não sei se te recordarei muitas mais vezes, Paulinho, ao teu sorriso e ao dia da notícia da tua morte (ou do desaparecimento nesse mesmo mar). Sobre esse outro homem, para o qual retenho, em velhos cadernos cadernos rasgados e a precisarem de ser reescritos, qual escriba, poemas a si dedicados. Sem que me repita, não sei se terei muitos mais a dizer.

De uma coisa tenho a certeza, com todas as minhas falhas, com todos os meus erros, com todas as minhas escolhas, boas ou más, é que não deixei de ser fiel a mim e ao que assumo como o melhor, o mais seguro. Tenho a certeza, também, de que, continuando a errar, não será por não tentar. E tenho a certeza de que, enquanto precisar de abrigo, senão de uma outra forma, terei sempre a escrita, por muito má que seja. 

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