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O fumo do meu cigarro

O fumo do meu cigarro

04
Mar17

Noite fora

Bruno

Estive para escrever, de dentro da discoteca onde passei grande parte da noite. Montes de caras conhecidas, mas... Não foi isso que me impediu. 

Encostado ao balcão, começo a sentir-me preso. Demasiada gente há minha volta, demasiadas cotoveladas, demasiados toques, muita gente que olhava. Negra era a minha roupa, negra não estaria, talvez, a minha alma. A falta de espaço, os olhares que passavam por mim, os demasiados toques, que este género de espaço impõe, levaram-me a procurar o conforto do isolamento, nas cadeiras a um canto. Eu ouvia a música, mas sentado da minha cadeira, a beber a minha Coca-Cola. 

Tantas mesas vagas, um grupo escolhe a mesa mesmo ao meu lado. A dançar e a fazer figuras, que mentalmente me faziam gozar, empurram outra das cadeiras contra as minhas pernas várias vezes. Deixam os seus pertences nos sofás atrás da sua mesa, vão lá para o meio - mentalmente, continuo a gozar com eles. 

Gosto desse meu conforto isolado, onde dificilmente se detém um olhar, mais dificilmente tenho que aguentar corpos alheios a tocar o meu. Gosto desse conforto isolado, em que vejo tudo o que se passa, onde tenho a possibilidade de controle sobre os acontecimentos, dentro do ambiente em que estou. 

A conversa que mencionei num texto específico, acabou por acontecer. Não com a amiga que eu esperava, mas com outra e um homem, meu cliente no café. Felizmente, não durou demasiado. 

Eu vivo. Vivo à minha maneira, a tentar manter um controlo exagerado sobre o que se passa, a tentar manter um controlo exagerado sobre aquilo que posso sentir. 

"És feliz?" perguntaram-me. Respondi que sim: a minha infelicidade é sentir demais, vibrar demais com a vida, vibrar demais com as pessoas, ao ponto de não gostar delas, de evitá-las ao máximo, vibrar demais com a ansiedade e com a saudade... Ansiedade, sabe-se lá porquê; saudade mista, de quem foi, do que já foi, saudade sei lá de quê, sei lá de quem. 

Sou feliz, deste meu jeito tresloucado e ansioso, não por ter tudo o que quero, mas por amar o que tenho. Sou feliz por insistir em distanciar-me muito das pessoas e consegui-lo (ainda hei-de mudar-me para a minha aldeia, afastada de tudo).

Vivo de ânsias. De saudade. De melancolias imensas. 

Curto a vida. Curto a noite. Curto a distância das gentes, o aproximar predatório, para o saciar de necessidades. Um dia chegará, em que tudo o que eu procure seja papel e algo com que escreva ou com que desenhe. 

Estive para escrever de dentro da discoteca. Mas não estava a resultar.

Agora, enquanto a chuva cai lá fora, vou dormir. E que se foda-se o resto do mundo. 

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