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O fumo do meu cigarro

O fumo do meu cigarro

06
Mar17

...

Bruno

Sei lá se chegam as horas. Se o dia chega ao fim.

Sei lá se a vontade é muita ou pouca.

Sei lá se é bom, se é mau.

Sei lá se as horas importam, sequer.

 

Procuro qualquer coisa. Ó meu Deus, não consigo encontrá-la, pobre de mim, nem sei o que é. Tenho esta tendência para dramatizar certas coisas: quanto aos sentimentos, é tão dramático quanto real, aquele afastamento, especialmente quando se trata de coração, romântico ou como queiram chamar-lhe. É tão verdadeiro, quando digo que nunca tive nada que se assemelhasse a uma relação. 

 

Escrevo. Escrevo para deixar sair os dramas que eu guardo dentro de mim. Escrevo para aliviar um pouco a alma, das coisas que insisto em guardar dentro de mim, porque não sei, porque não quero falar com as pessoas. Escrevo para manter a força, o foco. Escrevo para não enlouquecer de vez (o que, bem vistas as coisas, talvez não fosse mau de todo).

Há dias em que aquilo que se sente é esmagador. E nesses dias, mergulho em longos textos. Ou em textos fragmentados.

Recomecei a reescrever os meus diários (aquilo que disseste que não fazia sentido), a seleccionar coisas que fiquem, coisas que vão para o lixo. Se bem que não tenho tirado muita coisa. E há coisas que já me arrependi de ter eliminado, sem perder demasiado tempo com pensamentos sobre isso - já foi, já está. De nada serve, agora, lamentar.

 

No outro dia, fui arrumar uns desenhos mais recentes. Alguns por assinar, pois pretendo dar-lhes outro toque. Há aqueles que já estão assinados, mas que precisam de ser retocados. E na brincadeira, disse há minha mãe que ia mandar os desenhos para o lixo, o que lhe deixou um ar de desapontamento e de pânico na cara. Lógico que não deitei nenhum desenho fora, já me basta lamentar os que deitei fora durante a adolescência, que eram mais de muitos, talvez os mesmos que tenho neste momento.

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 Sei lá se as coisas chegam, se as horas são suficientes, se eu sou quanto baste. Tenho-me bastado até agora. E, pelo caminho, já tive muitos desejos de regressar ao meu velho ser, à minha velha essência, ainda que, por esta altura, ser gótico talvez se tornasse mais estranho do que durante a minha adolescência. E talvez fizesse menos sentido.

Preciso de uma pequena certeza na minha vida. Preciso de uma pequena solidez de coisas, que me façam sentir que há um chão debaixo dos meus pés, ao invés de sentir-me continuamente a cair.

Sei lá o que é que basta, o que é que está a mais. Sei lá o que é que me faz ser ou sentir o que sou e o que sinto. Nem sei se vale a pena interrogar-me ininterruptamente, mas eu interrogo-me. Eu Traço gestos pelo ar, carregado de fumo de cigarro, como se pretendesse alcançar alguma coisa, caminho pelas divisões da casa, às escuras, ou danço sozinho, com a música a tocar bem alto. Ninguém me vê, ninguém me atinge nestas horas.

 

Vou sair, agora. O trabalho aguarda-me, depois de uma noite de folga, sem que eu tenha o que reclamar. Senão da minha eterna falta de disposição para o que seja.

 

Vou sair.

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