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O fumo do meu cigarro

O fumo do meu cigarro

21
Dez16

...

Bruno

Todos choramos alguma coisa. Ou, pelo menos, lamentamos algo. Alguém. 

Estou em casa, embrulhado num edredão, com mãos que não aquecem há horas. O meu pensamento está, algures, lá fora. A minha alma está, algures, numa calle. E eu sinto-me um callejero. A minha alma está, algures, num outro lugar. 

Há umas horas, pensava em qualquer coisa que escrevesse. 

Fumo um cigarro, enquanto lamento qualquer coisa que não tenha escrito. 

Os meus fantasmas são os mesmos fantasmas de tantos outros: os meus têm os seus rostos, as suas vozes, os seus traços distintos, como o de qualquer outro. 

Penso que, muitas das vezes, não é preciso consumir-se em mágoa, para escrever-se sobre ela. Penso que, muitas vezes, não é preciso estar-se incomodado, enfadado, para se mostrar desagrado. É pôr a caneta no papel, os dedos nas teclas, deixar fluir o que vai na alma, no âmago do que nos é mais íntimo, como o fumo flui do cigarro, do pau de incenso que queima, neste momento, numa outra divisão da casa. 

 

Pensei que poderia escrever muita coisa. Mas, muita outra coisa, foi tomada como prioridade. 

Agora, de nada vale lamentar. Adiante, que, como a vida e o tempo, o anseio não espera por nós. Antes, tal como o tempo e a vida, consome-nos, corrói-nos, antes de cuspir-nos e abandonar-nos, usados, gastos, violados. 

 

O meu olhar. 

O meu olhar vai pousando sobre belos e interessantes rostos. 

A minha percepção capta certos comportamentos. Certas atenções. E eu sorrio. 

Há muito que deixei de importar-me, de incomodar-me.

 

Eles queriam que eu desse asas a um sentimento, sem saberem que, após ser feito brinquedo, eu é que manejo esse sentimento a meu bel-prazer. Eles falam de amor, de querer e ser querido, "porque ninguém é feliz sozinho". Pobres coitados, mal sabem quanto amor vomitei em versos, para que morresse. E o amor não morreu - eu ainda te amo, ainda te quero, ainda receio que me mates numa dessas ruelas escuras.

O coração joga jogos perigosos - aprendi a afastar-me antes que o coração jogasse comigo outra vez. 

Não se sintam mal, hipotéticos leitores, não lamentem a minha sorte. Porque é uma sorte gostar da minha própria companhia, acima de qualquer outra. É, realmente uma grande sorte, atravessar vales de medo, vales de morte, morrer por ansiar uma companhia e ver que, a melhor companhia, está do outro lado do espelho. 

Eles queriam que eu desse asas a um sentimento para com outros, mas esqueceram-se de que, eu, estou entre mim próprio e os demais. 

Eles queriam que eu amasse outros, esquecendo-se de que, ferida, uma fera torna-se bem mais perigosa. 

 

Eu queria escrever de tanta coisa, mas pouco do que aqui está reflecte realmente o que eu procurava dizer. 

Escrevo, porque necesito. Escrevo, porque gosto, porque exorcizo demónios, porque ajuda-me a lidar com esta realidade. 

 

Caminharei as ruas da cidade.

O frio não me atingirá. 

Olharei os fantasmas de frente - alguém há-de morrer, em todo este processo, mas não será a minha essência. 

Enfrentarei o mundo, por aqueles de quem gosto, por aqueles que aprecio (lê-me, saberás que isto é para ti, que esta é, também, a minha estranha forma de demonstrar o meu apoio). Enfrentarei demónios. 

Enfrentarei bestas. 

Enfrentei Deus (ou os Deuses) e o Demónio (ou os Demónios). 

Dançarei, em noite de Lua Cheia, com as assombrações. 

Beberei a minha Tequila. 

Divagarei. 

Perder-me-ei. 

Serei teu. Do outro. De mais cem, além dos cem de quem nem memória tenho, sem ser de nenhum deles. 

Oferecerei luxúria. Inocência e pureza. 

Oferecerei o suor do meu corpo e as lágrimas dos meus olhos. 

Atenuarei a erecção de outros cem, sem me recordar dos cem (ou duzentos? ) anteriores. 

O luar entrará pela janela, beijará as minhas flores, para que beijem o sol. 

A solidão é uma visita temporária. Matamos saudades dos velhos tempos, até que sai e deixa ficar, intacto, o meu orgulho, a minha vida. 

E, entretanto, nasce um novo dia. Já nada há a lamentar. Já nada há a chorar. 

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